O Livro de Hebreus: Um Tratado Unicista (Parte 5)
Marcelo Victor R. Nascimento
Ao longo da história bíblica, Deus utilizou símbolos materiais para ensinar a humanidade sobre a Sua santidade, a Sua presença e o Seu plano de redenção. No entanto, quando examinamos a epístola aos Hebreus sob a ótica da Unicidade, fica evidente que o Templo, a Arca da Aliança e os Rituais do Antigo Testamento nunca foram um fim em si mesmos.
Tais elementos eram sombras provisórias desenhadas para apontar para uma única realidade: o
Deus invisível manifestado de forma visível e definitiva na pessoa
de Jesus Cristo.
1. A Arca da Aliança: De Sombra Terrestre a Promessa Cumprida
No Antigo Testamento, a Arca da Aliança era o objeto mais sagrado de
Israel. Ela representava a presença de Deus (Shekinah), guardava
as tábuas da Lei em pedra e servia como o ponto de acesso ao Criador através do
sangue aspergido no Propiciatório (kapporet).
Contudo, a própria Escritura ensina que aquela caixa de madeira de
acácia coberta de ouro não era a origem do culto, mas apenas uma cópia
material. Em Êxodo 25:40, Deus ordena a Moisés que faça o tabernáculo conforme
o "modelo" (tipo) mostrado no monte. O autor de
Hebreus confirma esse princípio: "Os quais servem de exemplo e
sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado [...] Olha,
faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou." (Hebreus
8:5).
A ideia de que a arca física construída por Moisés teria sido levada
literalmente para o céu carece de lógica teológica e bíblica. Conforme Paulo
declara em 1 Coríntios 15:50, "carne e sangue não podem herdar o
reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção". Portanto, elementos
materiais da criação física não pertencem à dimensão espiritual e incorruptível
de Deus (João 4:24).
Quando João contempla a visão no céu e declara que "abriu-se
no céu o templo de Deus, e a arca da sua aliança foi vista no seu templo" (Apocalipse
11:19), ele não vê uma caixa de madeira resgatada da terra. Ele contempla
a realidade espiritual e eterna da aliança de Deus que
encontrou seu cumprimento definitivo e mais excelente na pessoa de Jesus Cristo
— o verdadeiro Propiciatório que gravou a lei nos corações de toda a humanidade
(Romanos 3:25; Hebreus 8:6,10).
Nota: a trajetória teológica da Arca da Aliança
se move do mistério histórico de seu desaparecimento à sua total substituição e
cumprimento espiritual na figura de Jesus Cristo. O livro deuterocanônico "Macabeus" refere-se à Arca da Aliança, em 2 Macabeus 2:4-8, sob uma perspectiva histórica e de preservação,
dizendo que Jeremias a escondeu no Monte Nebo, a fim de protegê-la da
invasão babilônica. Diz ainda que o local exato permaneceria esquecido e
inacessível até que Deus reunisse plenamente o Seu povo no fim dos tempos. Em Jeremias
3:16-17, o escritor bíblico trata da Arca da Aliança sob uma perspectiva profética de
transformação, advertindo que, na futura Nova Aliança, o objeto físico perderia
totalmente a utilidade. Na narrativa, é dito que a Arca seria esquecida, não visitada e nem
reconstruída, pois a presença de Deus se expandiria para além de uma caixa de
ouro, enchendo toda a Jerusalém restaurada. Embora a Bíblia não use a frase
literal "Jesus é a Arca", o Novo Testamento revela que o Messias cumpre e substitui perfeitamente todas as funções do objeto sagrado: (1)
Jesus é a manifestação física da presença de Deus entre os homens (João 1:14); (2)
Jesus é o verdadeiro Propiciatório (Kaporet) onde há o perdão dos
pecados (Romanos 3:25); e (3) Jesus é a personificação viva de tudo o que a Arca
continha: a Lei, o Pão do Céu (Maná) e o Sacerdócio Eterno (a Vara de Arão). Em
suma, enquanto 2 Macabeus narra o sepultamento do objeto e Jeremias profetiza o
seu esquecimento necessário, o Novo Testamento revela que a Arca "deixou de
existir" na Terra porque a sua realidade perfeita e viva se manifestou em Jesus
Cristo.
2. Jesus: O Verdadeiro Templo Redefinido na Carne
Assim como a Arca apontava para a Aliança perfeita, o prédio físico do
Templo apontava para a habitação de Deus no meio dos homens (era um "tipo"). Diante da
estrutura de pedras em Jerusalém, o próprio Jesus redefiniu radicalmente onde a
glória de Deus habita: "Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este
templo, e em três dias o levantarei [...] Mas ele falava do templo do seu
corpo." (João 2:19, 21)
O Templo de pedra era a sombra; o corpo de Jesus é o cumprimento daquilo que era o "tipo". A glória de Deus não reside mais em edificações feitas por mãos
humanas, pois em Cristo "habita corporalmente toda a plenitude da
divindade" (Colossenses 2:9). A humanidade de Jesus tornou-se a
habitação visível do Deus invisível, o único ponto de encontro e acesso entre o
Criador e a criação.
3. A Jerusalém Celestial e a Aparente Pluralidade de Apocalipse 21:22
Ao avançarmos para a consumação de todas as coisas no livro de
Apocalipse, encontramos o ápice da revelação da Unicidade na Nova Jerusalém: "E
nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o
Cordeiro." (Apocalipse 21:22)
Uma leitura desatenta poderia sugerir a existência de duas entidades
compartilhando um espaço, mas o texto bíblico mantém o substantivo
rigorosamente no singular: "o seu templo é...". Não existem
dois templos na Jerusalém Celestial, assim como não há duas divindades.
A passagem reúne duas realidades do mesmo e único Ser:
· O
Senhor Deus Todo-Poderoso: descreve
a natureza espiritual, invisível, ilimitada e criadora de Deus (o "Pai").
· O
Cordeiro: descreve a natureza
humana, visível, sacrificada e glorificada de Deus na história (o "Filho").
Na Eternidade, a sombra (o prédio de pedras e a arca material)
desaparece por completo. O próprio Deus Espírito, manifestado visivelmente para
sempre em Seu corpo glorificado (o Cordeiro), é a presença, o acesso e a glória
que preenchem todo o universo.
4. O Triunfo da Revelação Unicista
A progressão bíblica desvela um plano gracioso e perfeito:
1. A Sombra (Antigo Testamento): a Arca e o Templo terrestre serviram como
tipos provisórios da presença e do acesso a Deus.
2. A Manifestação Histórica (Evangelhos): o único Deus Espírito esvaziou-se radicalmente
na carne, fazendo do corpo de Jesus o Templo vivo e a Nova Aliança.
3. A Realidade Eterna (Apocalipse): na Jerusalém Celestial, não há necessidade de
símbolos de madeira ou pedras, pois o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro —
a divindade e a humanidade glorificada do único Deus — constituem o único e
eterno Templo.
Fomos salvos pelo próprio Criador que deu fim aos ritos provisórios para habitar conosco para sempre em Cristo Jesus, sem limite de tempo, nem contagem de dias, meses e anos, pois não haverá mais noite (Apocalipse22:5).
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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