O Livro de Hebreus: Um Tratado Unicista (Parte 2)
Marcelo Victor R. Nascimento
A análise da
vida, das tentações e do ministério terrestre de Jesus Cristo deve partir de
uma premissa clara e inegável nas Escrituras Sagradas: não há qualquer
dúvida de que Jesus é o único Deus. O texto bíblico é categórico ao afirmar
que "o Verbo era Deus" (João 1:1), e a fé apostólica
repousa no monoteísmo inegociável de que existe apenas um único Deus, e
não uma tríade de divindades ou uma divisão de pessoas ontológicas.
O grande dilema
teológico surge quando se tenta compreender como esse único Deus se manifestou
na carne. Ao afastarmos a linguagem e as formulações filosóficas das "duas
naturezas coexistentes" e retornarmos à matriz bíblica, a passagem de Hebreus
4:15 ("foi ele tentado em tudo, à nossa semelhança, mas sem
pecado") deixa de ser um paradoxo e revela a profunda realidade da
kenosis (o esvaziamento) no contexto do monoteísmo estrito, visto que Tiago
1:13 afirma categoricamente: "Deus não pode ser tentado pelo mal".
Mas, se Deus não
pode ser tentado, como Jesus pôde ser tentado em tudo?
1. A Kenosis
Real: O Esvaziamento Prático das Prerrogativas Divinas
Para que a
tentação descrita em Hebreus seja autêntica — e não uma encenação ou ilusão —,
o esvaziamento de Filipenses 2:7 operou na experiência humana de Jesus de forma
plena:
· Suspensão dos Atributos de
Poder: ao se fazer carne, a manifestação divina não
operou na terra através do uso independente de atributos como a imunidade à
fraqueza ou a onipotência.
· Experiência Humana Real: Jesus viveu sujeito às limitações biológicas, emocionais e mentais
próprias de qualquer ser humano: sentiu fome, cansaço, desgosto e dor.
· A Base da Tentação: o Diabo tentou o homem Jesus no deserto em suas fraquezas físicas e
humanas ("se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se
transformem em pães"), atacando a Sua dependência humana em
relação ao Pai.
2. A Vitória pela
Fé e Dependência, Não pela Onipotência
Na teologia
conciliar posterior, argumenta-se que Jesus não pecou porque a Sua "natureza
divina" o impedia. Contudo, essa explicação esvazia o ponto
central de Hebreus 4:15: se Ele venceu a tentação usando um poder divino
próprio mantido em reserva, Ele não foi tentado "em tudo à nossa
semelhança".
Sob o prisma da kenosis
e do monoteísmo estrito:
· Dependência do Espírito: Jesus venceu as tentações utilizando as mesmas armas disponíveis ao
homem justo: a Palavra de Deus ("está escrito"),
a oração e a plena submissão ao Espírito de Deus.
· Sem Sementes de Rebeldia: Ele era um homem em tudo semelhante aos seus irmãos, porém sem a
inclinação caída da carne rebelde ("mas sem pecado"). A
tentação vinha de fora e apelava para necessidades humanas legítimas (fome,
preservação, autoridade), mas foi vencida pela obediência irrestrita do Filho
ao Pai.
3. A Resolução da "Contradição Divinal"
DEUS EM SEU TRONO (YAHWEH)
Espírito, Imutável, Não Pode Ser Tentado
(Tiago 1:13)
↓
Manifestação na Carne (Kenosis)
↓
JESUS CRISTO (O FILHO)
Esvaziado de Glória - Sujeito às Fraquezas
Humanas
Tentado em Tudo - Venceu pela Obediência
(Hebreus 4:15)
A contradição só
existe quando se tenta aplicar a tentação ao Deus invisível e absoluto em Seu
trono (Tiago 1:13: "Deus não pode ser tentado pelo mal").
Quando o texto é lido a partir da distinção bíblica entre o Criador Onipresente
e a Sua manifestação na carne, a harmonia é restabelecida:
|
Abordagem |
Como
explica as tentações? |
Impacto
Teológico |
|
Teologia
Ontológica Grega |
A
"natureza humana" foi tentada, mas a "natureza divina"
era impecável. |
Gera divisão na
mente de Cristo; a tentação deixa de ser real se a divindade anula o risco. |
|
Kenosis
& Monoteísmo Estrito |
O Deus único se
manifestou na carne (o Verbo); em kenosis, Jesus viveu em dependência real e
venceu pela submissão. |
Preserva a
imutabilidade do Deus no céu (Tiago 1:13) e a realidade do Filho na terra
(Hebreus 4:15). |
Dessa forma, a
realidade do Sumo Sacerdote em Hebreus 4:15 é preservada: Jesus pode
verdadeiramente se compadecer das fraquezas humanas porque experimentou o peso
real da tentação na carne, demonstrando que o homem, quando totalmente submisso
ao único Deus, pode viver em perfeita obediência.
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma
maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o
eterno Deus limitou-se no tempo; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano;
o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em
sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou
com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se
revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não
pode ser tentado deixou-se tentar; Aquele que é três vezes santo se fez
maldição por nós; e o Deus imortal se fez mortal e verdadeiramente morreu
por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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