O Livro de Hebreus: Um Tratado Unicista (Parte 4)

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento

A compreensão teológica unicista sobre o plano da salvação encontra nas Escrituras uma mensagem contínua, coesa e sem divisões nem distorções filosóficas. É fundamental destacar um fato bíblico crucial: as Escrituras Sagradas nunca utilizam a palavra "essência" ou outras abstrações metafísicas para definir Deus, mas declaram de forma simples e direta que Deus, o Pai, é Espírito (João 4:24) — um Ser único, vivo e indivisível.

Há três passagens bíblicas que são fundamentais para entender o plano de salvação. Falemos delas abaixo.


1.  Hebreus 1:3 — Existe uma Única Pessoa Divina

Em Hebreus 1:3, o texto bíblico afirma categoricamente que Jesus é a "expressa imagem da sua pessoa". A palavra grega original utilizada para "pessoa" é hypostasis, que, no texto sagrado, refere-se à realidade do próprio Ser de Deus (Yahweh).

A Bíblia não fala em divisão de "essência divina" ou em "três pessoas distintas". Ela estabelece que existe uma única pessoa divina, o Deus invisível que é Espírito (João 4:24), e que Jesus é a manifestação exata e a imagem visível dessa única pessoa.


2.  1 Coríntios 8:5-6 — A Única Pessoa de Quem Hebreus Fala é o Pai

Quem é essa única pessoa de quem Jesus é a imagem expressa? O apóstolo Paulo elimina qualquer dúvida em 1 Coríntios 8:5-6, dizendo: "todavia para nós há um só Deus, o Pai..."

Enquanto a filosofia grega posterior tentou introduzir conceitos como "essência compartilhada", o texto bíblico é estritamente pessoal e direto: a única pessoa divina existente é o Pai. Ele é o Deus único de quem tudo procede. Portanto, se conectarmos essa passagem diretamente com Hebreus 1:3, fica claro que Jesus é a imagem visível e a estampa perfeita do próprio Pai.

Fonte: aúltimacrisedaterra (facebook).


3.  João 17:3 — Jesus Reforça que o Pai é o Único Deus

Em sua oração registrada em João 17:3, o próprio Jesus ratifica a verdade dita acima ao dirigir-se ao Pai na presença dos discípulos com as seguintes palavras: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro...".

Na limitação da sua carne e do seu esvaziamento humano, Jesus não utilizou concepções filosóficas como "consubstancialidade" ou "essência divina". Ele declarou expressamente que o Pai é o único Deus verdadeiro, não fazendo menção, em nenhum momento, sobre o Espírito Santo como sendo uma suposta "pessoa". 


4.  A Kenosis Radical do Deus que é Espírito

A junção dessas três passagens revela a força do Evangelho Unicista:

1. A Identidade Bíblica: o Pai é a única pessoa divina, o único Deus verdadeiro que é Espírito (1 Coríntios 8:5-6; João 17:3; João 4:24). As palavras "essência", "substância", "subsitência" são conceitos filosóficos posteriores e ausentes do texto sagrado.

2. A Manifestação Visível: Jesus Cristo é a expressão visível, tangível e perfeita da pessoa do Pai (Hebreus 1:3).

3. O Esvaziamento Radical: para resgatar a humanidade, o próprio e único Deus esvaziou-se radicalmente dos atributos de poder e manifestou-se em carne (1 Timóteo 3:16), tendo assumido a nossa fragilidade, enfrentado a dor e a morte, e feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados.

Não dependemos de especulações filosóficas para conhecer o nosso Deus, tais como: "essência", "substância", "subsitência", ou qualquer outro conceito grego. A Bíblia revela claramente o "Pai como um ser divino espiritual", manifestado perfeitamente na pessoa de Jesus Cristo.

Tudo isso fica ainda mais claro quando, ao ser interpelado por Filipe pedindo-Lhe que mostrasse o Pai, Jesus assume abertamente a Sua identidade:  "Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?" (João 14:9).

Imagem gerada por Google AI, 2026.


Nota Teológica:

    A história do cristianismo mostra que a hesitação inicial em incluir o Livro de Hebreus no cânon esteve ligada: à sua autoria anônima (como ocorre com os Evangelhos); ao seu estilo literário diferente dos demais Livros; ao grego mais refinado utilizado na sua escrita e aos critérios institucionais de apostolicidade do período patrístico (origem apostólica direta ou comprovadamente escrito por um discípulo próximo a um apóstolo). Não há menção a uma tentativa de conter a verdade do monoteísmo absoluto defendido pelo autor do Livro, alinhado à perfeita humanidade de Jesus, e à Sua plena e indivisível divindade.

    Contudo, parece ser correto entender a luta do diabo contra a inclusão desse Livro no cânon também porque há nele elementos profundos que fortalecem o monoteismo absoluto de Yahweh, tornando a visão unicista a mais bíblica, tais como: 

    (1) A Realidade da Encarnação (Kenosis): o Livro enfatiza o fato da humanidade do Filho ter sido plena e autêntica (Hebreus 2:14, 5:7-8), afastando a ideia de uma mera simulação ou encenada "representação"; 

    (2) A Supremacia e Divindade de Cristo: o Livro aplica diretamente textos do Antigo Testamento referente ao único Deus Supremo diretamente a Jesus, como no capítulo 1, verso 8 (citando o Salmo 45:6: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre"); 

    (3) A Revelação Única de Deus: Hebreus 1:1-3 estabelece que Jesus Cristo é a expressa imagem da “pessoa” de Deus, mostrando que há uma só pessoa (um ser real, o molde exato e idêntico da matriz) de quem Jesus é a manifestação visível e completa, ainda que se queira mudar o termo para “essência”, a fim de levar os leitores para a filosofia grega. Portanto, a humanidade visível de Jesus Cristo é a expressão física, tangível e exata da pessoa do Deus invisível.


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso

A Fórmula Batismal [Parte 1]: Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas

Parte 1 - Refutação ao Credo de Atanásio [a Declaração de Fé Trinitária]