O Livro de Hebreus: Um Tratado Unicista (Parte 3)
Nos debates e nas reflexões sobre a natureza da divindade,
frequentemente nos deparamos com visões que tentam diluir ou fragmentar a
realidade do Criador. Para a visão unicista, no entanto, a revelação bíblica é
cristalina: não há divisões, pessoas distintas ou representações teatrais no
plano da salvação. Deus é único, e a encarnação do Verbo em Jesus Cristo
representa a demonstração máxima e mais profunda do Seu poder e de Sua
condescendência com a humanidade.
A Escritura Sagrada nos apresenta no livro de Hebreus uma das passagens
mais profundas e comovedoras sobre a experiência terrena do Senhor: "Ele,
nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e
súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda
que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu."
(Hebreus 5:7-8)
1. A Kenosis Radical: Um Esvaziamento Real e Profundo
Quando analisamos Hebreus 5:7-8, somos confrontados com a verdade da kenosis
— o esvaziamento espontâneo de Cristo (Filipenses 2:7). Deus não assumiu a humanidade de maneira
superficial ou teórica. Ao manifestar-se na carne, o Senhor habitou plenamente
a nossa realidade, sujeitando-se às limitações humanas, às dores, às dobras da
existência mortal, às lágrimas e à angústia genuína, sendo, em tudo, semelhante aos demais homens (Hebreus 2:17).
As "orações e súplicas com grande clamor e lágrimas" não foram uma simulação. Jesus viveu a experiência humana em sua totalidade real. O esvaziamento foi radical precisamente porque aquele que sustenta todas as coisas pelo poder da sua palavra submeteu-se, voluntariamente, à fragilidade do corpo e à vivência da obediência através do sofrimento.
Nota: no Unicismo, a kenosis é radical porque o esvaziamento não é parcial; ele é total no que diz respeito aos atributos de poder, para que pudesse, em tudo, semelhante aos homens: A Bíblia mostra que: (1) Aquele que por Sua Palavra e Sopro criou o exército celestial (Salmo 33:6), esvaziou-se a ponto de nascer como uma criança indefesa, necessitando do leite de uma criatura humana; (2) Aquele que é o próprio Manancial da Vida (Salmo 36:9) e a Fonte da Água Viva (Apocalipse 21:6) esvaziou-se ao ponto de sentar-se à beira de um poço em Samaria e dizer: “Dá-me de beber” (João 4:10); (3) Aquele que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14:6) esvaziou-se de Sua imortalidade intrínseca para que Sua carne pudesse experimentar a morte de cruz por nós; e (4) Aquele que foi chamado Filho de Deus tornou-se menor do que os anjos (Hebreus 2:7), algo impossível se trouxesse em si os atributos de poder (caso contrário, seria infinitamente maior do que todas as criaturas celestiais).
2. Deus Não Participa de "Teatro" ou "Faz de Conta"
Qualquer interpretação que sugira que as orações de Cristo eram apenas
um diálogo encenado entre "pessoas distintas" dentro da Divindade
reduz a redenção a um ato dramático artificial. Deus não faz parte de um
teatro de faz de conta.
Quando Jesus orava ao Pai, o homem perfeito — a humanidade genuína de Cristo — estava em plena comunhão e submissão ao Espírito Eterno de Deus que n Ele veio habitar por ocaisão do batismo. Não havia encenação: era a carne real clamando ao Pai real. A dor era real, o temor da morte era real, e a obediência aprendida no sofrimento foi alcançada de forma autêntica, tratando-se, portanto, de uma prova concreta de que Yahweh despojou-se dos atributos de poder, tornando-se menor do que os anjos (Hebreus 2:7).
Defender a veracidade da kenosis é rejeitar categoricamente qualquer ideia de que os momentos de fraqueza e oração do Messias foram meras atuações teatrais.
3. A Impossibilidade de Jesus Não Ser Deus
Ao reconhecermos a integridade do esvaziamento e a realidade da sua humanidade, a Palavra de Deus nos impede de ceder ao erro oposto: o de negar a plena divindade do Messias. É absolutamente impossível que Jesus não seja Deus.
A própria Escritura testifica de forma inequívoca sobre a divindade suprema e eterna de Cristo. O Salmo 45:6 declara: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu reino." Essa mesma passagem é atribuída e aplicada diretamente a Jesus no Novo Testamento (Hebreus 1:8). O mesmo que chorou e aprendeu a obediência na carne é Aquele cujo trono subsiste para todo o sempre, chamado expressamente de Deus.
Não há contradição no Evangelho Unicista: o Deus Todo-Poderoso, o Pai Eterno e Criador, manifestou-se inteiramente na carne (Isaías 9:6). Exaltado nas alturas, na pessoa de Jesus Cristo, habita corporalmente toda a plenitude da Divindade (Colossenses 2:9).
Nota: a expressão “ainda que era Filho, aprendeu a obediência por aquilo que padeceu” (Hb 5:8) é uma das passagens mais fortes sobre o esvaziamento de Jesus Cristo (a kenosis), pois retrata Sua origem divina e a ausência dos atributos de poder (Lucas 1:35; Gálatas 4:4; Filipenses 2:7), como se o escritor estivesse dizendo: "ainda que tivesse vindo do céu, Ele teve que passar pelo processo de aprendizagem como todos os demais homens", algo inconcebível para alguém que possuisse o atributo da onisciência.
Conclusão
A mensagem de Hebreus 5:7-8, combinada com a revelação contínua das Escrituras como o Salmo 45:6, lembra-nos de que a salvação é obra de um Deus vivo e verdadeiro. Ele não enviou um intermediário, nem encenou uma farsa perante a humanidade. O próprio Deus Supremo se rebaixou, assumiu a forma humana em uma kenosis profunda e autêntica, viveu as nossas dores, chorou as nossas lágrimas e venceu a morte na cruz. Ele é o único Deus verdadeiro, Rei dos reis e Senhor dos senhores, cujo trono permanece para todo o sempre.
Nota Teológica: A Helenização do Vocabulário Cristão pelos Apologistas e Padres da Igreja
A transição da teologia bíblico-hebraica (centrada nas ações históricas do Deus único) para as categorias ontológicas da filosofia grega (como ousia, hypostasis e substantia) foi consolidada no século II e III por pensadores como:
(1) Justino Mártir (c. 100 – 165 d.C.), que introduziu a filosofia do Logos derivado;
(2) Tertuliano de Cartago (c. 155 – 220 d.C.), que formalizou o conceito de una substantia, tres personae); e
(3) Orígenes de Alexandria (c. 185 – 253 d.C), que aplicou a metafísica neoplatônica ao formular a tal da geração eterna do Filho.
Sob a perspectiva unicista, a incorporação desses termos filosóficos distorceu a simplicidade do texto bíblico e a unidade indivisível do Criador, substituindo o conceito da manifestação do único Deus na carne por divisões de substâncias e subsistências eternas dentro da Divindade.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.



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