Saiba Como o Sábado Sendo "Sombra" do "Verdadeiro" Aponta para o Unicismo Bíblico
Marcelo Victor R. Nascimento
Para entender Colossenses 2:16-17, precisamos olhar para a palavra que o apóstolo Paulo usa no grego original: skia (σκιά), que quer dizer "sombra". O texto diz o seguinte: "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo."
Essa distinção entre "sombra" e "realidade" é a chave hermenêutica para compreender o que Paulo está
defendendo aqui. Paulo faz uma analogia visual
impressionante.
1. A Analogia da Sombra e do Corpo
Imagine que você está caminhando e, antes de virar uma
esquina, você vê a sombra de alguém se aproximando projetada no chão.
· A
sombra é real? Sim.
· Ela
tem o formato da pessoa? Sim, ela dá uma pista exata de como a pessoa é (se é
alta, se é magra e se está carregando algo por exemplo).
· Mas
a sombra é a pessoa em si? Não. E quando a pessoa real finalmente vira a
esquina e aparece, você não fica mais olhando para o chão
interagindo com a sombra; você olha e interage diretamente com a pessoa.
Paulo está dizendo que os rituais do Antigo Testamento — as leis dietéticas (comer e beber), as festas anuais, as celebrações mensais (luas novas) e os sábados semanais — funcionavam exatamente como essa sombra projetada no chão da história. Eles apontavam para o futuro, anunciando que "alguém real" estava chegando. Esse "alguém real" (o "corpo" que projeta a "sombra") chama-se Jesus Cristo.
Nota: em Gálatas 3:24, o apóstolo
Paulo compara a Lei Mosaica a um "aio", i.e., um tutor encarregado de
guiar e proteger o povo de Deus até a chegada de Jesus. Em outras palavras, a Lei
apontava para o Messias, revelando-nos que ao homem era impossível salvar-se pelos
próprios méritos. Uma vez que a realidade chegou e a fé se manifestou, o tutor perdeu sua utilidade prática, da mesma forma que uma fotografia perde o sentido
quando a pessoa amada está presente. Portanto, os símbolos da Antiga Aliança
foram substituídos pela realidade em Jesus Cristo, de sorte que insistir nas regras antigas
para obter a salvação significa desprezar e anular a eficácia do
sacrifício de Jesus. É exatamente isso que a Bíblia declara com as
seguintes palavras: “Se
a justiça vem por meio da lei, Cristo morreu inutilmente [debalde]"(Gálatas 2:21).
2. O Contexto Histórico em Colossos
A igreja em Colossos estava sofrendo a influência de um falso ensinamento que misturava "misticismo pagão" com o "legalismo judaico". Havia falsos mestres exigindo que os cristãos gentios guardassem rigidamente os dias sagrados judaicos e as restrições alimentares como pré-requisito para a salvação ou para a maturidade espiritual. Paulo reage de forma contundente e diz: "Ninguém vos julgue por causa disso" (v.16).
Exigir que um cristão volte a focar na "sombra" (as regras da
lei antiga) depois que o próprio "corpo" (Jesus Cristo) já chegou é um retrocesso
teológico. Seria o mesmo que preferir abraçar a sombra de um amigo no chão em
vez de abraçar o próprio amigo que está de pé na sua frente.
3. Atos 10: O Rompimento da Sombra no
Coração de Pedro
Na visão do lençol cheio de animais imundos, Deus dá uma
ordem direta a Pedro: "Levanta-te, Pedro; mata e come" (Atos
10:13). Quando Pedro recusa, alegando que nunca comeu nada comum ou imundo,
Deus responde: "Não faças tu comum ao que Deus purificou".
· O
significado imediato:
Deus estava usando as leis alimentares (as "sombras")
para ensinar que os gentios (os povos não judeus) não eram mais impuros.
A barreira de separação havia caído.
· A conexão teológica: para que os gentios pudessem ser aceitos sem precisar se "judaizar", Deus mostra a Pedro que futuramente a própria lei que separava os alimentos entre puros e impuros havia de ser reformulada (havia uma prazo de validade), conforme Hebreus 7:12 e Hebreus 9:10-11.
4. Atos 15: A Aplicação Pastoral na Transição
Se a visão de Atos 10 abriu as portas para os gentios, ela
gerou um problema prático: como judeus e gentios viveriam e comeriam juntos
na mesma mesa se os judeus ainda guardavam à risca a Torá e os
gentios comiam de tudo?
O Concílio de Jerusalém em Atos 15 resolve isso promovendo uma
espécie de "ajuste":
· Os participantes do Concílio acabam por confirmar a visão de Atos 10 e os gentios são dispensados de guardar a Lei de
Moisés para serem salvos (v.19).
· Contudo, os gentios são orientados a se abster das coisas sacrificadas aos ídolos, da carne sufocada e do sangue (v.29).
Isso veio ao encontro da purificação vista por Pedro em Atos 10. O motivo definitivo,
universal e perpétuo para a proibição do sangue e das coisas sacrificadas aos ídolos não era um "escândalo cultural", mas a adoração unicamente a Deus e a santidade da vida, cujo símbolo e
veículo é o sangue.
5. Colossenses 2:16: A Consolidação
Teológica Definitiva
Anos mais tarde, com a igreja já amadurecida e estabelecida entre as nações, Paulo escreve aos cristãos de Colossos e "coloca os pingos nos is". Assim sendo, aquilo que começou como uma visão para Pedro (Atos 10) e virou um "acordo de paz" no Concílio de Jerusalém (Atos 15), transforma-se agora em um axioma de liberdade em Colossenses 2:16: as distinções de comida e bebida eram apenas "sombras", pois "corpo" (a realidade) havia chegado.
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Texto |
Fase da Revelação |
Foco Principal |
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Atos 10 |
Rompimento |
Deus mostra que as barreiras foram destruídas
(judeus e gentios na mesma família). |
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Atos 15 |
Conciliação |
A liderança aplica essa liberdade com
sabedoria pastoral para manter a igreja unida. |
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Colossenses 2 |
Maturidade |
Paulo declara a total suficiência de
Cristo, desobrigando o cristão de viver sob as sombras da Lei. |
6. Como Esse Tema se Conecta com a Visão Unicista?
Essa passagem de Colossenses 2:16 é central na hermenêutica bíblica porque ela mostra o princípio da revelação progressiva e do cumprimento messiânico:
(1) A Lei era a "Sombra": o sábado apontava para o descanso espiritual verdadeiro — Jesus (Mateus 11:28; Hebreus 4:1); os sacrifícios apontavam para o Cordeiro (João 1:29); as festas apontavam para os "marcos da redenção".
(2) Jesus é a Realidade (O Corpo): sendo Jesus a manifestação visível do Deus invisível, Ele preenche e encerra a função pedagógica dessas "sombras". No tocante à unicidade, a humanidade de Jesus foi o véu de humildade sob o qual Yahweh caminhou na Terra, mas naquele grande Dia (da Sua volta), essa mesma realidade se manifestará em glória visível a todas as criaturas, exatamente como Ele sempre foi, descrita em Apocalipse da seguinte maneira: "Voltei‑me para ver de quem era a voz que falava comigo. Voltando‑me, vi sete candelabros de ouro, entre os candelabros, alguém semelhante a um filho de homem, vestido com uma túnica que chegava aos pés e um cinto de ouro ao redor do peito. A cabeça e os cabelos eram brancos como a lã, tão brancos como a neve; os olhos, como chama de fogo. Os pés eram como o bronze reluzente em uma fornalha ardente, e a voz, como o som de muitas águas [...] O seu semblante era como o sol quando brilha em todo o esplendor" (Apocalipse 1:13-16).
Isso tudo nos revela que, no Antigo Testamento, o homem se relacionava com Deus através dos rituais e símbolos (as "sombras"). Já, no Novo Testamento, a igreja relaciona-se diretamente com a própria "realidade", isto é, com a Sua manifestação na carne (1 Timóteo 3:16). Contudo, haverá um dia em que a "sombra" da Sua primeira manifestação será desfeita aos olhos de todos e a humanidade conhecerá que o próprio Criador, em pessoa, veio a esta terra, como havia prometido, e não mandou uma terceira pessoa, como acreditam os trinitários.
Fica-nos este alerta: prender-se à "sombra" esvazia, em todos os aspectos, o valor e a suficiência da obra maravilhosa realizada por Jesus. Isso posto, haverá um dia em que toda a humanidade, por bem ou por mal, entenderá as seguintes palavras de Jesus: "Quem me vê a mim, vê o Pai" (João 14:9).
Nota: as festas eram “marcos da redenção” porque representavam os pilares de uma ponte entre a Velha e a Nova Alianças. A redenção não é um conceito abstrato; ela é feita de acontecimentos históricos reais: (1) Jesus precisava morrer (Festa da Páscoa); (2) Jesus precisava enviar o Espírito Santo para capacitar a Igreja (Festa de Pentecostes); e (3) Deus precisava habitar permanentemente com o homem transformado (Festa dos Tabernáculos). Portanto, quando os judeus celebravam essas festas ano após ano, eles estavam, sem saber, encenando o cronograma exato do que o "Deus manifestado na carne" faria séculos mais tarde. Jesus Cristo é o cumprimento histórico de cada um desses marcos.
Considerações Finais:
O Antigo Testamento projetou a "sombra" de um Salvador. Quando Jesus veio na primeira vez, Ele andou em humildade sob a condição humana para cumprir essa "sombra". Mas, no último Dia, o mesmo Yahweh [que se esvaziou de Si mesmo — Filipenses 2:7 — e morreu na cruz] voltará revestido com a glória que sempre Lhe pertenceu (João 17:5), tendo cumprido, na primeira vinda, o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12).
Por isso, cabe ao homem estar atento e humilhar-se diante de Deus, compreendendo e aceitando a maneira que Ele escolheu falar com a humanidade, i.e., Sua didática celestial de usar "sombras" para, em seguida, trazer à tona a "realidade". Glória a Ele eternamente. Amém!!!



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