A Identidade da Igreja Primitiva: Os Discípulos Eram Chamados de "Cristãos" e Nunca de "Adoradores da Trindade"
Marcelo Victor R. Nascimento
No Novo Testamento, a forma como os primeiros fiéis eram identificados revela a centralidade absoluta da pessoa de Jesus Cristo no pensamento e na prática dos apóstolos. A comunidade primitiva nunca utilizou ou recebeu títulos fragmentados como "adoradores do Pai", "adoradores do Filho" ou "adoradores do Espírito Santo". Pelo contrário, a identidade da igreja era una e indivisível, i.e., eles eram identificados única e exclusivamente com o Nome de Cristo.
Portanto, a aceitar que Jesus tenha dado uma orientação para que o batismo fosse realizado em nome de uma família de deuses, em Mateus 28:19, contraria tudo que a Bíblia ensina, ainda mais quando tal passagem usa "títulos" e não "nomes próprios" como identificação pessoal, e traz a expressão "nome" no singular, gerando um impasse sintático.
Falemos um pouco da relevância dada por Deus ao Nome de Jesus Cristo.
1. O Surgimento do Nome em Antioquia (Atos 11:26)
Foi na cidade de Antioquia da Síria que o termo surgiu historicamente
para designar os seguidores do Messias: "E em Antioquia os discípulos
foram, pela primeira vez, chamados cristãos [christianós]." — Atos 11:26
O sufixo grego -ianos (derivado do latim -ianus) indicava pertencimento legal, vassalagem e lealdade absoluta a um senhor ou soberano (como no caso dos herodianos ou cesarianos). Chamar a igreja de "cristãos" significava declarar abertamente que aquele grupo pertencia de forma irrevogável a Jesus Cristo.
O texto bíblico não registra divisões
em torno de títulos impessoais (como "adoradores do Pai", ou "adoradores do Filho", ou "adoradores do Espírito Santo"). Toda a fé e a vida da comunidade convergiam
para a pessoa do Senhor Jesus.
2. O Testemunho de Pedro e Paulo sobre o Nome
A apostolicidade da igreja manteve a firmeza nessa única identidade sob
perseguição e julgamentos públicos:
· O
Testemunho de Pedro: ao
instruir a igreja que sofria com as perseguições no Império Romano, o apóstolo
Pedro escreveu: "Mas, se padece como cristão, não se envergonhe;
antes, glorifique a Deus neste nome." — 1 Pedro 4:16
· A
Confissão perante o Poder Político: quando o apóstolo Paulo apresentou sua defesa perante o rei Herodes
Agripa II, a resposta do monarca evidenciou a marca pela qual o povo de Deus
era publicamente reconhecido: "E Agripa disse a Paulo: Por pouco me
persuades a fazer-me cristão!" — Atos 26:28
3. O Nome pelo Qual os Mártires Entregavam a Vida
A razão pela qual a igreja primitiva era perseguida, arrastada aos
tribunais e lançada nas arenas imperiais não era a crença abstrata em um Deus
genérico ou o uso de títulos metafísicos. A perseguição romana e a oposição do
sistema religioso da época ocorriam especificamente por causa do Nome de
Jesus Cristo.
· A Ordem
de Pronúncia: os apóstolos
foram repetidamente açoitados e proibidos pelas autoridades de falar ou ensinar
no Nome de Jesus (Atos 4:17-18; Atos 5:40).
· O
Motivo do Martírio: o próprio
Senhor Jesus profetizou a respeito do preço que a igreja pagaria por manter
essa identidade centralizada Nele: "E sereis odiados de todos por
causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo."
— Mateus 10:22
Nas arenas e perante os magistrados romanos, o teste de fidelidade do
crente da igreja primitiva não consistia em recitar dogmas sobre divisões na
Divindade (uma família de deuses), mas em responder à pergunta "Você é cristão?", com o
sacrifício da própria vida.
4. A Unidade do Nome na Prática da Igreja Apostólica
Ao rejeitarem formulações fragmentadas e se firmarem na identidade de cristãos, os apóstolos demonstraram que, no Nome de Jesus, habita a plenitude da revelação de Deus para a humanidade, e não em filosofias humanas e vãs sutilezas: "Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." — Colossenses 2:9.
Substituir ou diluir a designação de "cristão" por classificações fracionadas ignora a regra apostólica de Colossenses 3:17 (“E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus”) e afasta a igreja do padrão bíblico do Novo Testamento, no qual toda a comunidade e cada discípulo, individualmente, traziam a marca do único Nome dado sob o céu pelo qual devamos ser salvos (Atos 4:12).
Conclusão: A Improbabilidade da Fórmula Trinitária em Mateus 28:19
A tese de que Mateus 28:19 continha originalmente uma fórmula batismal trinitária esbarra em uma contradição intransponível quando confrontada com o tecido histórico e bíblico do Novo Testamento. Aceitar a autenticidade dessa leitura tradicional exige admitir um paradoxo absurdo: a totalidade da Igreja Apostólica teria agido em direta e imediata desobediência à última ordem dada por Jesus.
Assim sendo, se considerarmos os aspectos abaixo discriminados, concluiremos com absoluta tranquilidade que uma crítica textual séria mostrará que a fórmula tripla não reflete a ordem original de Cristo:
- 100%
dos batismos registrados nas Escrituras foram ministrados estritamente em Nome
de Jesus Cristo;
- A Igreja primitiva jamais foi identificada por frações relacionais ("adoradores do Pai", "adoradores do Filho" ou "adoradores do Espírito Santo"), mas pelo título de cristãos (Atos 11:26);
- A lealdade à designação de cristãos foi selada através de açoites e morte nas arenas sob a confissão e invocação do Nome de Jesus (Atos 5:40; Atos 7:59-60; Atos 8:1,3 e Atos 12:1-2); e
- Os discípulos estavam debaixo da regra apostólica universal: "E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus" (Colossenses 3:17).
Portanto, parece ficar claro que Mateus 28:19 marca uma alteração litúrgica e imperial posterior, desenhada para amparar dogmas pós-apostólicos, em direta contradição com a práxis da Igreja Primitiva, como sugerem importantes obras literárias, tais como:
(1) The Encyclopedia Britannica, 11a Edição, Vol e, Pág. 365;
(2) An Encyclopedia of Religions, by Maurice A. Canney, Pág. 53;
(3) The Suhaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, Vol. 1, Pág.435;
(4) Encyclopedia of Religion and Ethics, by James Hastings, Vol. 2, Pág. 380;
(5) A Dictionary of the Bible, by Hastings, James and Selbie, John, Vol. 1, Pág. 241;
(6) Encyclopedia de Bíblia, Teologia & Filosofia, de R.N. Champlin, Vol. 1, Pág. 60; e
(7) Bíblia de Jerusalém, Ed. Revista e Ampliada, 1998.
Referências Bibliográficas:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Um só batismo, em nome de Jesus Cristo!!! Joinville: Clube de Autores.




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