A Metáfora do Livro: Entendendo a Encarnação de Deus Sem Divisões

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Marcelo VictorR. Nascimento

Muitas pessoas olham para os Evangelhos e sentem dificuldade de compreender como Jesus pode ser o Deus Único e, ao mesmo tempo, falar do Pai, orar e até mesmo chamá-Lo de "Meu Deus". Para explicar essa verdade, a teologia trinitária, numa leitura equivocada, acabou dividindo Deus em três pessoas distintas, introduzindo conceitos filosóficos no cristianismo. Mas a Bíblia não divide a divindade em uma família de deuses (deus-pai, deus-filho e deus-espírito santo).

Para compreendermos a beleza da Unicidade de Deus aliada ao Seu esvaziamento dos atributos de poder para vir a esta Terra (Kénosis Radical), existe uma ilustração perfeita: a metáfora do Autor e do Personagem.

Imaginemos que Deus é o Autor de um livro interativo (com participação ativa entre duas ou mais partes). Ele continua vivo na realidade externa, controlando a narrativa, mas decide projetar a sua pessoa (toda a Sua mente e Seu coração, i.e., Seus valores, Sua personalidade, Seu caráter, Seus atributos morais, Seus sentimentos, Seus pensamentos, Suas vontades, Sua consciência) para dentro da história, tornando-se também o Personagem principal, a fim de encerrá-la com um final justíssimo e feliz. De sorte que o Autor e o Personagem não são duas pessoas diferentes; são o mesmo e único ser operando em duas dimensões simultâneas.

Vejamos como essa ótica descomplica passagens bíblicas profundas:


1. O Autor no Céu e o Personagem na Terra (Onipresença e Unicidade)

Como Deus é Espírito e Onipresente, Ele não precisou "deixar o Céu vazio" para nascer na Terra. Ele manteve Sua presença cósmica governando o universo (o “Pai”), mas concentrou o Seu “ser interior” (Sua identidade) dentro de um corpo humano (o “Filho”). De maneira que o Autor e o Personagem coexistem sem que existam dois deuses.

·   Fundamento Bíblico: João 1:1,14 nos mostra que "No princípio era o Verbo [o Autor], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne [o Personagem] e habitou entre nós...". A Carta aos Hebreus, citando a profecia de Ezequiel 37:27, ratifica essa verdade dizendo: “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste [o Autor], mas corpo me preparaste [o Personagem]…” (Hebreus 10:5). Quanto à onipresença divina descrita no Salmo 139:7-12, tal atributo é testificado por Jesus [o Personagem] ao dizer, em determinado momento, que estava no céu enquanto conversava com uma pessoa na terra: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem [o Personagem], que está no céu [o Autor]” (João 3:13)."

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2. O Esvaziamento de Poderes (A Kénosis Radical)

Para que a história fosse real, o Autor aceitou se submeter às regras do Seu próprio livro. Para ser exatamente como os demais personagens do livro, Ele despojou-se dos Seus atributos divinos de poder (como onisciência, imortalidade, onipotência) e decidiu sentir fome, cansaço, angústia, medo e dor. Na Terra, Jesus [o Personagem] não operava por um poder "mágico" intrínseco à Sua natureza humana, mas sim em total dependência do Espírito eterno [o Autor].

·   Fundamento Bíblico: o apóstolo Paulo descreve esse acontecimento em Filipenses 2:7, ao dizer que Jesus Cristo [o Personagem] "esvaziou-se de si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens". Por estar em estado de esvaziamento total dos atributos de poder, Ele declarou, em João 5:30: "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma...", e, em João 12:49: “Porque eu não tenho falado de mim mesmo [o Personagem]; mas o Pai [o Autor], que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar [o Personagem].”

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3. O Batismo: O Autor Usando Elementos Visuais no Livro

Para dar início à Sua missão pública, o Personagem Principal [Jesus] vai até o rio Jordão, onde se encontravam outros personagens do livro (João Batista e a multidão). Para que todos entendam quem é aquele homem esvaziado, o Autor — que continua controlando o livro do lado de fora — decide introduzir dois "efeitos especiais" na cena: uma luz em forma de pomba e uma voz ecoando do alto que servem como sinal (uma revelação) para quem assiste, e não uma reunião de uma família divina.

·   Fundamento Bíblico: a voz [do Autor] vinda do céu legitima o Personagem perante o público (João 12:30) e a Pomba serve como sinal visual de identificação para João Batista (João 1:32-33), além de servir como um instrumento de capacitação para o Personagem principal, conferindo-Lhe poder para operar sinais, prodígios e maravilhas (Atos 2:22). Com isso, o próprio Personagem certifica-se de que possui uma missão especial e reveste-se de poder e confiança para cumpri-la, conforme a seguinte passagem bíblica: “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele.” (Atos 10:38). Assim, Deus [o Autor], sendo Espírito invisível (estando fora do livro), proveu maneiras visuais distintas de manifestar-se aos personagens: "Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos" (1 Coríntios 12:6).

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4. Por que o Personagem chama o Autor de "Meu Deus"?

Este é o nó que confunde muitos leitores, mas que se desata com a metáfora do livro. Como o Personagem estava vivendo 100% limitado pela condição humana, quando olhava para cima, Ele reconhecia que o Espírito de Deus [o Autor que sustenta a história] era o Seu Deus e a Sua fonte de vida.

·   Fundamento Bíblico: Em João 20:17, o Jesus [o Personagem] ressuscitado diz: "...subo para meu Pai [o Autor] e vosso Pai, meu Deus [o Autor] e vosso Deus." Não há duas pessoas aqui; é a mente humana de Deus se relacionando com a totalidade divina de Si mesmo. Afinal, a Bíblia é categórica em afirmar em Efésios 4:6 que: há apenas "Um só Deus e Pai de todos". Quando a trajetória do Personagem no livro termina, Ele sobe para ser totalmente reabsorvido na glória do Autor, deixando, aos demais personagens, a Sua Palavra (os Seus ensinamentos) que são "Espírito e Vida" (João 6:63).

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5. "Quem me recebe, recebe quem me enviou"

O Autor não mandou um terceiro, um anjo ou um "deus Filho" subordinado para dar vida à história. Ele veio em pessoa. Por isso, a forma como a criação trata o Personagem dentro do livro é a forma exata como estão tratando o Autor fora dele.

·    Fundamento Bíblico: por essa razão, Jesus afirma em Mateus 10:40: "Quem vos recebe, a mim me recebe [o Personagem]; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou [o Autor]". O Antigo Testamento já havia dado o "spoiler" dessa dinâmica em Isaías 7:14 e Isaías 9:6, profetizando que o menino que nasceria como homem, ao longo da história, seria chamado de “Deus conosco” (Emanuel), "Deus Forte" e "Pai da Eternidade".

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6. O Ponto de Encontro: Por que "VEM" ao Pai e não "VAI"?

Ninguém precisa construir um foguete espiritual para sair das páginas do livro e tentar achar o Autor em uma dimensão invisível. O Autor já veio até nós na forma de Personagem principal do livro. Jesus [o Personagem] usa o verbo vir ("vem ao Pai") porque Ele é o destino final, manifestado de forma visível e tocável aos demais personagens da história.

·   Fundamento Bíblico: Em João 14:6, Ele declara: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai [ao Autor], senão por mim [pelo Personagem]". E para que não restassem dúvidas de que o Personagem e o Autor são a mesmíssima pessoa, Ele conclui em João 14:9: "Quem me vê a mim [o Personagem], vê o Pai [o Autor]...".

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7. O Clamor na Cruz: O Personagem no Momento Mais Escuro do Roteiro

Imagine que o Autor escreveu o capítulo mais dramático e terrível do livro: o momento em que o Personagem Principal deve carregar a culpa de todos os erros cometidos pelos personagens da história e morrer por causa deles. Para que essa morte seja real e humana, o Autor decide cortar temporariamente qualquer sensação de consolo, alívio ou conexão espiritual que o Personagem principal sentia desde  de quando fora revestido de poder no batismo. O Personagem é deixado totalmente sozinho dentro das páginas frias do livro, experimentando o peso absoluto da escuridão humana.

Ao se sentir completamente desamparado na carne, o Personagem olha para o céu e grita para o Autor (que é Ele mesmo) como se tivesse clamando por ajuda. Não é uma briga entre dois deuses; é o grito da natureza humana do Personagem Principal sentindo, pela primeira vez, a ausência da manifestação consoladora do Autor (o Espírito Divino).

·   Fundamentos Bíblico: quando Jesus [o Personagem principal] clama "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", Ele está citando textualmente o Salmo 22, mostrando que o esvaziamento (Kénosis) foi radical, a fim de que Ele pudesse morrer como morrem os mortais. Para tanto, foi necessário que a divindade [o Autor] "retirasse" do Personagem a Sua presença reconfortante, a fim de que a carne do mesmo, carregada dos pecados dos demais personagens, sofresse o julgamento merecido pelas transgressões. Por essa razão, a Bíblia afirma categoricamente que: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2 Coríntios 5:19). Essa parte da história narrada nas Escrituras mostra a inteira Unicidade na cruz, i.e., não se tratava de um Deus no céu [o Autor] jogando sua ira contra um ser inocente na Terra [a Personagem], mas o próprio Deus, vazio de poder, dentro daquele corpo, sofrendo na pele humana a dor da separação que o pecado causa. No último suspiro, a trajetória do livro alcança seu clímax, quando o Personagem diz: "Pai [o Autor], nas tuas mãos entrego o meu espírito [a vida do Personagem]" (Lucas 23:46). A Consciência Humana que estava esvaziada e sofrendo na cruz desliga-se do corpo e o fôlego de vida retorna diretamente para a Realidade Externa, ou seja, para os "braços" da Totalidade Divina [o Autor]: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus [o Autor], que o deu.” (Eclesiastes 12:7).

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8. O Clímax do Livro: A Ressurreição e a Assinatura do Autor (A Vitória sobre a Morte)

O capítulo final da jornada terrena do Personagem Principal não termina no sepulcro. Se a história parasse na cruz, o enredo da nossa salvação estaria incompleto. Na teologia da Unicidade, a ressurreição é o momento em que o Autor do Livro reverte as leis da biologia humana, dentro da narrativa, para trazer o Personagem Principal de volta à vida, provando, de forma absoluta, quem tal Personagem realmente é.

Os inimigos celebram a morte do Personagem e fecham o túmulo com uma pedra. Mas o Autor, que controla o próprio tecido do tempo e da vida, por estar fora do livro, reescreve a história ao terceiro dia (depois da morte do Personagem Principal). Ele entra nas páginas da morte, ressuscita o Seu próprio corpo esvaziado, devolvendo-lhe o fôlego de vida, contendo o “DNA espiritual” do mesmo, i.e.,  com a memória das experiências pelas quais Ele passou em vida, e faz com que o mesmo apareça vivo novamente.

Ele não faz isso para impressionar a todos os personagens do livro de imediato, mas reúne um grupo escolhido de personagens coadjuvantes, come e bebe com eles, e assina a Sua obra, dando-lhes a missão de espalhar o final feliz dessa história por todo o mundo.

·   Fundamento Bíblico: é exatamente essa narrativa cirúrgica que o apóstolo Pedro prega na casa de Cornélio nesta passagem bíblica: “E nós somos testemunhas de todas as coisas que fez... ao qual mataram, pendurando-o num madeiro. A este ressuscitou Deus ao terceiro dia, e fez que se manifestasse, não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus antes ordenara; a nós, que comemos e bebemos juntamente com ele, depois que ressuscitou dentre os mortos.” (Atos 10: 39-41). Quando o verso diz que "Deus o ressuscitou", entende-se que o Espírito Infinito e Onipresente [o Autor] soprou vida novamente na carne limitada [o Personagem]. Não é uma pessoa divina ressuscitando outra, mas o Autor trazendo Sua própria manifestação humana de volta à cena. O v.42 afirma que Jesus foi constituído por Deus como "juiz dos vivos e dos mortos", significando que, na condição humana de Personagem, Ele recebeu, do Seu próprio Espírito Divino [o Autor], a autoridade total sobre a criação [sobre todas as páginas do livro]. O desfecho do livro é a aplicação do perdão. O v.43 conclui que "todos os que nele creem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome [do Personagem Principal]". Fica a seguinte questão: Por que pelo nome de Jesus? Resposta: Porque o nome do Personagem Principal carrega a autoridade do próprio Autor! (Filipenses 2:9-11). Quando cremos em Jesus [o Personagem], estamos reconhecendo, no roteiro do livro, que foi o próprio Deus [o Autor] que se humilhou para pagar a nossa dívida [de todos os personagens do livro].

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Conclusão

A teologia da Unicidade nos lembra de uma verdade avassaladora: Deus nos amou tanto que não enviou um intermediário para nos salvar. O próprio Autor do Universo aceitou o limite das páginas da nossa história, chorou nossas lágrimas e sangrou na cruz como um Personagem humilde.

Ao olharmos para Jesus, não estamos vendo a “segunda pessoa” de uma Trindade, mas sim o rosto do próprio Deus e Pai da Eternidade, que se esvaziou por amor a cada um de nós.

Clique no vídeo e assista esta matéria comentada.



Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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