Transição da Fé Monoteista para a Construção Filosófica da Trindade (Parte 2)
Marcelo Victor R. Nascimento
A transição da fé monoteísta apostólica centrada na revelação de Deus
em Jesus Cristo para o dogma trinitário não aconteceu da noite para o dia.
A história da igreja e a historiografia teológica atestam que essa mudança
ocorreu gradualmente entre os séculos II e IV d.C.
Esse processo foi impulsionado por dois fatores principais: a Helenização
do Cristianismo (a fusão da mensagem bíblica hebraica com a filosofia
grega/platônica) e a intervenção política do Império Romano.
1. As Sementes da Mudança: A Helenização (Século II)
Após a morte dos apóstolos, a liderança da igreja passou
progressivamente das mãos dos cristãos de origem judaica para convertidos
gentios instruídos na filosofia pagã (especialmente o Platonismo e o
Neoplatonismo).
· Justiniano
Mártir (c. 100–165 d.C.): Foi
um dos primeiros apologistas a introduzir conceitos da filosofia de Platão na
teologia cristã. Para explicar o Logos de João 1, Justino aplicou a
ideia platônica do Logos como um "segundo Deus" (deuteros
theos), uma entidade divina subordinada ao Pai. Isso abriu a porta para a
ideia de pluralidade de pessoas divinas.
Nota: Justino era um filósofo pagão platonista que se converteu ao cristianismo, mas continuou vestindo o pálio (a túnica dos filósofos gregos). A sua contribuição para o desvio do monoteísmo apostólico deu-se através da Teologia do Logos. Em sua Primeira Apologia (Capítulos 61 e 63), escrita por volta de 155 d.C., Justino tenta explicar a fé cristã ao imperador romano Antonino Prio usando categorias do platonismo. Ele ensinou que o Logos (Cristo) era uma "segunda divindade" produzida pelo Pai, chamando-o expressamente de um "segundo Deus" (deuteros theos) e colocando-o em um "segundo lugar", com o Espírito Santo em um "terceiro lugar". Na Primeira Apologia, Cap. 61, Justino descreve o batismo que se praticava na época entre os gentios usando as expressões "em nome de Deus, Pai e Senhor do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo", um dos primeiros documentos extracanônicos a mostrar os cristãos gentios abandonando a invocação do Nome de Jesus no batismo para adotar a menção descritiva das três instâncias (Pai, Filho e Espírito Santo). Dessa forma, ele acabou introduzindo a ideia de subordinacionismo e o pluralismo Filosófico (a ideia de entidades divinas em "1º, 2º e 3º lugares"), preparando o terreno e as bases conceituais para que os teólogos seguintes construíssem a fórmula trinitária.
2. Quem Criou o Termo? Tertuliano de Cartago (c. 155–220 d.C.)
O primeiro escritor a usar a palavra latina Trinitas
(Trindade) e a formular a frase "uma substância em três pessoas",
em sua obra contra o monoteísta Práxeas (Adversus Praxean), no final do
século II e início do século III, foi Tertuliano, um advogado e teólogo
de Cartago (Norte da África):
· A
influência do Direito Romano: como
jurista, Tertuliano usou termos do tribunal romano para explicar a Divindade:
o Substantia (Substância): o direito de propriedade que pertence ao
grupo.
o Persona (Pessoa): originalmente, persona referia-se à máscara usada pelos atores
no teatro romano ou a um indivíduo com representação jurídica.
· A contradição histórica: ironicamente, Tertuliano acabou abandonando a igreja majoritária da sua época para se juntar ao Montanismo (um movimento sectário). Ele próprio mantinha uma visão abertamente subordinacionista (o Filho era inferior e posterior ao Pai), algo que a ortodoxia católica posterior declarou como herético.
3. A Formulação Teórica: Orígenes de Alexandria (c. 185–253 d.C.)
Orígenes, um teólogo erudito de Alexandria, profundamente imerso na
filosofia neoplatônica, tentou harmonizar a existência do "Filho" com a "eternidade de Deus".
· Ele
introduziu o conceito filosófico da "Geração Eterna do Filho"
— a ideia de que o Filho é eternamente gerado pelo Pai, estabelecendo as bases
para a noção de uma "segunda pessoa eterna" ao lado do Pai.
4. A Imposição Imperial e Política (Século IV)
A transformação do conceito filosófico em dogma obrigatório só ocorreu
com o uso da força do Império Romano.
A. O Concílio de Nicéia (325 d.C.) e o
Imperador Constantino
Com o crescimento das disputas entre Ário (que
ensinava que o Filho era uma criação) e Alexandre/Atanásio (que defendiam a co-eternidade),
o imperador pagão Constantino I convocou o primeiro concílio ecumênico
em Nicéia para evitar a divisão política do seu império.
· Constantino
— que não era teólogo nem havia sido batizado — sugeriu e impôs o termo grego Homoousios
("da mesma substância") para definir a relação entre o Pai e o Filho.
· O credo
resultante definiu o Pai e o Filho como duas pessoas divinas distintas da mesma
substância, excluindo e excomungando quem discordasse.
B. O Concílio de Constantinopla (381 d.C.) e o
Imperador Teodósio I
A Trindade de três pessoas co-iguais e
co-eternas só foi oficialmente concluída 56 anos depois de Nicéia, sob o
império de Teodósio I.
· O Édito
de Tessalônica (380 d.C.):
Teodósio decretou que a única religião oficial e legal do Império Romano seria
a fé na "Divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Todos os
que rejeitassem esse ensino foram formalmente declarados heréticos e sujeitos a
perseguição estatal.
· O Concílio de Constantinopla (381 d.C.): adicionou o Espírito Santo como a "terceira pessoa" do dogma, finalizando a fórmula trinitária.
Resumo Cronológico da Evolução do Dogma
|
Período/Data |
Figura/Evento Chave |
Conceito Introduzido/Imposto |
Origem do Conceito |
|
Século I (Apóstolos) |
Pedro, Paulo, João |
Monoteísmo estrito; Deus manifestado na carne em Jesus Cristo (Atos
2:38; 1 Tm 3:16). |
Revelação Bíblica Hebraica |
|
c. 150 d.C. |
Justino Mártir |
O Logos como uma "segunda divindade" subordinada ao
Pai. |
Filosofia Platonista |
|
c. 200 d.C. |
Tertuliano |
Cunhou a palavra Trinitas e a fórmula "três pessoas, uma
substância". |
Linguagem Jurídica Romana |
|
325 d.C. |
Concílio de Nicéia (Constantino) |
Dogmatização do Homoousios (Pai e Filho da mesma substância). |
Intervenção Estatal e Teologia Alexandrina |
|
381 d.C. |
Concílio de Constantinopla (Teodósio I) |
Formalização da Trindade de três pessoas co-iguais e co-eternas. |
Decreto Imperial e Teologia dos Pais Capadócios |
Conclusão
Historicamente, a ideia da Divindade dividida em "três
pessoas" não nasceu no ensino apostólico do I século. Ela foi construída
ao longo de quase 300 anos pela mescla de conceitos filosóficos gregos
(que já possuíam tríades divinas em religiões pagãs como as do Egito, Babilônia
e Roma) com o texto bíblico, culminando em sanções políticas e militares do
Império Romano para proibir o monoteísmo apostólico original.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.



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