A Justiça Legal do Sacrifício de Jesus [a Integridade da Natureza Humana do Último Adão]

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Marcelo Victor R. Nascimento

A linha de raciocínio bíblica alinha-se perfeitamente com uma vertente cristológica que prioriza a justiça legal do sacrifício e a integridade da natureza humana de Jesus chamada Teologia Unicista Kenótica.

Com base nessa corrente de pensamento, vamos analisar à frente a profundidade teológica de três pontos fundamentais que primam pela coerência bíblica.


1. Identidade Humana vs. Atributos de Poder

A distinção entre quem a pessoa é (caráter, amor, santidade, identidade, Nome) e o que a pessoa faz (manifestação de poder) é cirúrgica.

· O Deus que escolhe se limitar: ao dar o livre-arbítrio ao homem, por exemplo, Deus voluntariamente limitou a Si mesmo, permitindo que a humanidade fizesse escolhas contra a Sua própria vontade, o que nos mostra que Deus não está cativo dos Seus atributos de Poder, podendo abrir mãos deles se assim desejar (“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência…” (Deuteronômio 30:19).

·  O esvaziamento real: embora tenha escolhido esvaziar-se dos atributos de poder, Jesus manteve Sua identidade (o Filho de Deus era expressão exata do caráter do Pai), Deus não é escravo da Sua própria onipotência; Ele tem o poder de escolher não usar e esvaziar-se do Seu poder se assim for da Sua vontade. Portanto, a kenosis não foi uma perda de quem Ele era, mas uma suspensão voluntária do que Ele é capaz de fazer, a fim de viver com a glória que pertence a qualquer homem nascido de mulher, como Ele era (Gálatas 4:4).

Nota: em diversos versículos bíblicos, os escritores mostram, de forma clara e irrefutável, que era o Pai (o Espírito Eterno) que operava os milagres, prodígios e maravilhas, usando o tabernáculo que Ele próprio preparou para habitar (Hebreus 10:5), a quem deu o nome de Jesus (Lucas 1:31), tais como: (1) “...A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós…” (Atos 2:22); (2) “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele.” (Atos 10:38); (3) "…Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai ... Pois o Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que faz" (João 5:19-20); (4) “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.” (João 5:30); (5) “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras.” (João 14:10). Essas passagens mostram que o Espírito Santo revelava a Jesus a vontade do Pai em tempo real. Se o Pai queria, por exemplo, curar um paralítico naquele momento, Jesus "via" (percebia pelo Espírito) essa intenção e agia em perfeita obediência, dando glória unicamente ao Pai (que operava as obras): "Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça" (João 7:18).

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2. O Último Adão e o Perigo do "Ser Híbrido"

A figura do semideus ou do ser híbrido (metade Deus, metade homem) pertence às mitologias pagãs (como Hércules), e não à tipologia bíblica do Messias.

·  A exigência do Cordeiro: para que o sacrifício de Jesus fosse legalmente válido diante da justiça de Deus, a balança precisava estar perfeitamente equilibrada. Se o pecado entrou no mundo por um homem comum (o primeiro Adão), a redenção precisava vir por um homem comum (o último Adão) [1 Coríntios 15:21].

·   Se Jesus tivesse um "componente genético ou metafísico de superpoderes" blindando Sua carne, Ele não seria o equivalente de Adão. O sacrifício seria inválido porque a "moeda de troca" seria diferente. Ele precisava ser 100% humano para que Seu sangue humano purificasse a humanidade.

Nota: algumas correntes de pensamento usam o fato de Jesus receber adoração e perdoar pecados como justificativa de que se tratava de um ser híbrido (“deus-homem, “homem-deus”, “superhomem”). Contudo, tais ações eram legítimas porque Sua identidade essencial é Yahweh. Não há idolatria ou blasfêmia. Outrossim, como homem esvaziado de poder, Ele opera sob autoridade concedida pelo Pai (Mateus 28:18), preservando a legalidade de Sua missão terrena como o Cordeiro e o Último Adão. Quanto à Sua capacidade de conhecer o coração dos homens (João 2:25), ela não vinha de um "cérebro divino" ativo na carne, mas do fato d’Eleter recebido a plenitude do Espírito Santo (João 3:34), sendo o canal profético perfeito, i.e., 100% humano em Sua biologia, mas perfeitamente conectado à onisciência divina por meio do Espírito. Com relação ao trono celestial, as Escrituras mostram que Yahweh não está confinado ao espaço. Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó 11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos (tamanha é a Sua grandeza) [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:7-12] permitiu-Lhe preencher o universo e, simultaneamente, acomodar-se, de forma a manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], d'onde preside sobre a assembleia celestial e rege o Universo de uma forma geral [Salmos 82:1]. Por esse mesmo atributo, Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória (como “Pai”) e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores (como “Filho”), cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia de nuvens e de escuridão" (Ezequiel 34:11-12).

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3. A Impossibilidade de Deus Ser Tentado ou Tocar no Mal

Este é o ponto mais forte em termos de lógica textual bíblica, apoiado diretamente em Tiago 1:13: "Deus não pode ser tentado pelo mal" e em 1 Timóteo 3:16: “Aquele que tem, ele só, a imortalidade…”.

·   A lógica da tentação: se Jesus estivesse operando na Terra com Sua natureza divina ativa, a tentação no deserto teria sido um teatro, pois Deus, por definição, é incapaz de ser tentado ou de pecar. Para que a tentação de Jesus fosse real (como afirma Hebreus 4:15), Ele precisava estar despido da imunidade divina.

·   O peso do pecado e a morte: A Bíblia diz que Jesus "se fez pecado por nós" (2 Coríntios 5:21) e que Ele experimentou a morte. Como Deus é o autor da vida e a própria santidade que não se mistura com o mal, a divindade de Jesus não poderia morrer ou carregar o pecado. Foi o Jesus Homem que suportou a separação do Pai na cruz ("Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?").

Nota: há vertentes unicistas que defendem que o trono ficou vazio enquanto o Verbo se fez carne e que Yahweh desceu completamente na terra trazendo tudo o que Ele é tudo o que Ele faz, e escondeu (mascarou) Sua divindade em um corpo de carne, tendo orado para si mesmo (para Sua suposta “porção divina”), numa completa esquizofrenia sem qualquer base bíblica para tal argumento. A coisa fica ainda pior quando, na cruz, Jesus diz “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, pois o que será que aconteceu com Sua suposta “porção divina”? Além dessas verdades, tal vertente não possui explicação lógica nem bíblica para o fato do Pai ter falado em voz humana com o Filho, dizendo: “E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” (Mateus 3:17).  Via de regra, as justificativas são baseadas em “achismos” (inferências) filosóficos e não em afirmações bíblicas claras para resolver esse imbróglio.

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O Impacto dessa Visão

A conclusão é que a beleza do Evangelho não está em um Deus que usou Seus poderes para vencer o mundo de forma fácil, mas sim em um Deus que amou tanto Sua criação que se tornou verdadeiramente um de nós, aceitando correr o risco real de sofrer e ser tentado, vencendo o pecado unicamente através da fé, da obediência e da dependência do Espírito Santo. Isso torna Jesus um exemplo real e imitável para nós.

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Nota Teológica 
A ressurreião de Jesus foi um ato de total dependência do Pai, pois se Jesus tivesse retornado à vida por meio de um poder divino próprio e intrínseco, o paralelo entre o Cordeiro e o Último Adão seria enfraquecido. No entanto, o Novo Testamento repete à exaustão que Deus o ressuscitou dentre os mortos (Gálatas 1:1, Efésios 1:20). Como um homem perfeitamente justo e sem pecado, a morte não tinha base legal para retê-Lo (a justiça do Pai exigia Sua ressurreição), e, por isso, foi ressuscitado. 
Se Jesus tivesse ressuscitado a Si mesmo por "superpoderes", Ele seria uma exceção biológica, mas como o Pai o ressuscitou pelo Espírito Santo (Romanos 8:11), Ele tornou-se as "primícias" — esse acontecimento é a prova exata de que nós, homens comuns, seremos ressuscitados da mesmíssima forma.
A afirmação bíblica de que Jesus ensinou pelo Espírito Santo após a Ressurreição revela o estado real de Jesus pós-ressurreição: "...até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera." (Atos 1:2). A implicação lógica dessa verdade é que, mesmo Jesus tendo vencido a morte, Ele ainda operava sob a dependência do Espíriro Santo, i.e., agia dentro do canal que escolheu para Sua humanidade (semelhante à nossa), confirmando que, de fato, Ele ressuscitou.
O fato d'Ele ter dito aos discípulos que não sabia quando retornaria para buscar Sua igreja ("Daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai" — Marcos 13:32) prova que a limitação de conhecimento não era um "teatro temporário" antes da cruz. Mesmo ressurreto, o Filho mantinha o Seu esvaziamento funcional em relação aos planos e datas decretados exclusivamente pela autoridade do Pai.
Juntando todas essas peças, o cenário bíblico se desenha sem contradições:
  1. Yahweh (o Pai), por Sua onipresença, governa o Universo em Seu trono celestial.
  2. Yahweh manifestou-se na Terra ao mesmo tempo em que estava no céu (João 3:13), por causa da onipresença, esvaziando-Se voluntariamente de Seus atributos de poder e assumindo o nome de Jesus (Yahweh é salvação) — o Filho.
  3. Jesus vive como o Último Adão, 100% homem, limitado, dependente do Espírito Santo para milagres, conhecimento e ensinamentos (inclusive após ressuscitar).
  4. Jesus morre de verdade, é ressuscitado pelo poder do Pai e é levado ao céu.
  5. Somente quando Jesus Se assenta novamente em Seu trono na Majestade Celestial é que Ele reassume a glória e a manifestação plena de Seus atributos divinos, como vemos em Apocalipse 1, onde Seus olhos são como chama de fogo e Sua voz como o estrondo de muitas águas.

Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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