Presciência Divina e Esvaziamento Radical de Jesus em 1 Pedro 1:19-20

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Marcelo Victor R. Nascimento

O Plano na mente de Deus [conhecido antes e manifestado depois]

 "Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto no fim dos tempos por amor de vós." (1 Pe 1:19-20).

 

Considerar a unicidade absoluta de Deus (Unicismo) e a kénosis radical (a ideia de um esvaziamento total, onde a divindade abdica/renuncia plenamente de seus atributos divinos de poder para assumir a condição humana) simultaneamente exige uma articulação teológica muito específica, mas fundamentalmente bíblica.

Em 1 Pedro 1:19-20, a junção dessas duas premissas estabelece a narrativa de um decreto eterno seguido de um esvaziamento histórico absoluto.


1. O Decreto Eterno: O Cordeiro na Mente de Deus (Visão Unicista)

No Unicismo, Deus é uma única pessoa sem distinção de "subsistências" eternas, aliás o conceito de "subsistências" não é bíblico, mas originado na filosofia grega e trazido (imposto) por amantes da filosofia ao cristianismo. Portanto, antes da criação do mundo, não existe uma "Segunda Pessoa da Trindade" dialogando ou planejando com o Pai. Existe apenas o Pai — o Espírito Eterno —, que, em sua presciência, projeta e decreta todo o plano redentor.

·  "Conhecido antes da fundação do mundo": na mente de Deus, a humanidade de Cristo e o seu sacrifício já existiam como um conceito absoluto e determinado, até que, no tempo determinado, o "Verbo se fez carne" (João 1:14), i.e., a expressão divina (o Espírito) que emana da Sua boca para criar todas as coisas assumiu um tabernáculo de carne (Salmo 33:6;Hebreus 10:5). O Filho não é um ser pré-existente ao lado de Deus, mas o propósito encarnacional do próprio Deus: "…Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2 Coríntios 5:19).

·  O Sangue do Cordeiro (v. 19): o plano desde a eternidade era que o único Deus invisível assumiria a condição de Cordeiro (João 1:29). O sangue que redime não vem de um "terceiro" enviado por Deus, mas do próprio Deus que preparou para si um corpo para a redenção: “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (Atos 20:28).

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2. A Manifestação na História: A Kénosis Radical (v. 20)

Quando o texto bíblico transita de "conhecido antes da fundação do mundo" para "manifestado no fim dos tempos", a kénosis radical atua como o mecanismo pelo qual essa transição ocorre: “Seja o modo de pensar de vocês o mesmo de Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus; mas esvaziou-se (aniquilou-se) a si mesmo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se asi mesmo, sendo obediente até a morte e morte de cruz”” (Filipenses 2:5-8).

A kénosis radical afirma que, ao se manifestar em carne, Deus não apenas "escondeu" ou "encobriu" sua glória, mas renunciou à vinda a este mundo com Seus atributos divinos incomunicáveis (como a onipresença, a onipotência e a onisciência independentes), a fim de viver em submissão total como um homem real — o último Adão (1 Coríntios 15:45), em tudo, igual aos demais seres humanos (Hebreus 2:7) e menor do que os anjos: "Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos" (Hebreus 2:7). 

Combinando Unicismo e Kénosis Radical em 1 Pedro 1:19-20 temos o seguinte:

1.  A Abdicação do Espaço Criador: o Espírito Eterno que planejou a salvação antes do tempo se limita voluntária e radicalmente ao espaço-tempo e à fragilidade de um corpo humano: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado." (Hebreus 4:15).

2.  Dependência e Vulnerabilidade Total: o Cordeiro imaculado manifestado (v. 19) não atua na terra munido de prerrogativas divinas ativas de poder. Ele se esvazia a tal ponto que vive, sofre e sangra em total dependência do Espírito (o Pai), tornando-se plenamente vulnerável à morte de cruz: "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma...” (João 5:30) e “...o Pai que está em mim é quem faz as obras” (João 14:10).

3. O Sangue Verdadeiramente Humano e Perfeito: para que o sangue fosse verdadeiramente de um "cordeiro imaculado e incontaminado", a kénosis precisava ser radical: Cristo viveu sob a lei, submetido às limitações e tentações humanas, vencendo o pecado não por "usar a divindade", mas pela perfeita obediência e capacitação do Espírito: “Como Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, e como ele andou por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo Diabo, porque Deus estava com ele.” (Atos 10:38).

Nota: sobre o esvaziamento de Yahweh, o apóstolo Paulo diz o seguinte: "Pois conheceis a graça de nosso senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos (2 Coríntios 8:9). Não há sentido em dizer que uma pessoa extremamente rica abriu mão da sua riqueza e tornou-se pobre, caso ela não tenha ido a um cartório, assinado um documento transferindo, de fato, toda a sua riqueza para outrem. Somente assim, essa pessoa poderia dizer que verdadeiramente se tornou pobre. Todavia, se tal pessoa apenas disse que abriu mão da sua riqueza, mas não foi ao cartório e não transferiu todos os seus bens a outrem, ela não se tornou pobre de fato, i.e., ela simplesmente “fez de conta” que abriu mão da sua riqueza, continuando a ser a verdadeira dona dos bens (ou seja, não passou de uma grande hipocrisia). No caso de Jesus, não se trata de hipocrisia, pois a Bíblia declara que a Palavra de Deus (feita carne) tornou-se “menor do que os anjos” quando veio a este mundo (Hebreus 2:7). Portanto, o esvaziamento ocorreu de fato, visto que, se possuísse todos os atributos de poder, jamais Jesus seria menor do que as criaturas celestes. Dessa forma, se a Palavra de Deus não tivesse se despojado dos seus atributos de poder, para que, através da morte, condenasse o pecado na carne, Ela jamais teria sido um ser humano à semelhança dos demais (Hebreus 2:17) e Seu sacrifício não teria sido válido. Outrossim, para sustentar o insustentável, há quem diga que Yahweh "acrescentou a natureza humana à divina", de forma que, ora a Palavra agia como homem e ora agia como Deus. Porém, se assim foi, além de invalidar as palavras de Paulo e os argumentos ora apresentados, teria havido um "acréscimo" e não um "esvaziamento", constituindo-se em uma contradição lógica (depondo contra a harmonia dos textos bíblicos).

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 3. Síntese do Desenvolvimento Bíblico na Passagem

Elemento de

1 Pe 1:19-20

Interpretação Unicista

Impacto da Kénosis Radical

Antes da Fundação do Mundo

O Deus Único projeta o plano da encarnação na Sua presciência.

O plano predetermina o momento em que a divindade se autolimitará plenamente.

O Cordeiro Imaculado (v. 19)

O papel humano de expiação assumido pelo único Deus.

A perfeição do Cordeiro vem da obediência vivenciada em fraqueza humana real, e não de um facilitador divino prévio.

Manifestado no Fim dos Tempos (v. 20)

O Pai invisível se torna visível como Filho na história.

A manifestação é o ato kenoico: a entrada de Deus no mundo não como rei glorioso, mas esvaziado de seus atributos de poder, a fim de ser, em tudo, igual aos demais homens e menor do que os anjos.



Conclusão

Sob essa ótica integrada, 1 Pedro 1:19-20 retrata o momento em que o Deus único deixa o plano formulado na eternidade e entra na limitação da história para cumpri-lo, abrindo mão de Sua glória transcendente (kénosis) para encarnar o papel de Cordeiro redentor igual, em tudo, aos demais homens,conforme Ele próprio havia idealizado desde o princípio.

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Nota Teológica Fundamental
    Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó 11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:7-12] permitiu-Lhe preencher o universo e, simultaneamente, acomodar-se, de forma a manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], d'onde preside sobre a assembleia celestial e rege o Universo de uma forma geral [Salmos 82:1]. 

    Por esse mesmo atributo, Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória (como “Pai”) e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores (como “Filho”), cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia de nuvens e de escuridão" (Ezequiel 34:11-12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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