Refutação aos Críticos da Teologia Unicista Kenótica (Parte 2)
Marcelo Victor R. Nascimento
Conforme especificado na matéria anterior(Parte 1), a discussão em torno da kenosis radical é um dos debates
cristológicos mais profundos. O termo deriva de Filipenses 2:7, que usa
o verbo grego ekenōsen ("esvaziou-se a Si mesmo";
“aniquilou-se a Si mesmo).
Aqueles que criticam ou rejeitam a kenosis radical não
negam que o texto bíblico fale em "esvaziamento", mas discordam
do alcance, da extensão e da natureza desse esvaziamento
(aniquilação). Para a teologia cristã clássica (e até para correntes unicistas
moderadas), a leitura da kenosis radical traz problemas hermenêuticos,
exegéticos e teológicos.
Entretanto, para refutar as objeções tradicionais contra a kenosis
radical e demonstrar que o esvaziamento (aniquilação) de Cristo foi
real e profundo, a Teologia Kenótica Unicista utiliza a própria exegese
bíblica para desmontar cada argumento da teologia clássica.
As refutações estruturam-se da seguinte forma:
1. Refutação ao Argumento de que a Kenosis foi apenas "Esvaziamento
de Posição"
Os críticos dizem que Jesus não perdeu atributos, mas apenas abriu mão de sua glória e posição visível, mantendo sua onipotência oculta.
Réplica Kenótica:
Essa leitura ignora a força do termo grego original ekenōsen (de kenoo). Na Bíblia, kenoo significa literalmente "tornar vazio", "esvaziar de conteúdo", "anular" ou "fazer sem efeito" (usado, por exemplo, em Romanos 4:14 e 1 Coríntios 1:17 para descrever algo que perde o seu poder ou conteúdo real).
Se Paulo quisesse dizer apenas "mudança de posição" ou "ocultação de glória", ele teria usado termos como skenoo (habitar) ou metaschematizo (transformar a aparência). O uso de ekenōsen combinado com o texto de Filipenses 2:7, indicando que Ele assumiu a "forma de servo" (doulos), significa que Ele decidiu abrir mão de ser Senhor (de possuir na encarnação Sua divindade em poder) para viver estritamente sob as limitações da humanidade.
Nota: é comum os trinitários usarem a “metáfora
do rei” para dar respaldo à crença no "Esvaziamento
por Adição" em Filipenses 2:7. Dizem que um rei pode vestir-se com panos
de mendigo, mas não deixa de ser rei em autoridade. Ele apenas esconde sua
glória por baixo da roupa. Contudo, tal analogia domonstra a fraqueza da
posição clássica, pois reduz a encarnação a um disfarce. Se um rei veste
panos de mendigo, mas mantém uma conta bancária milionária, guardas invisíveis para
o defender e o poder absoluto de decretar leis a qualquer segundo para se
livrar do frio ou da fome, por exemplo, ele não é um mendigo real;
é um rei fazendo um papel de teatro social. A Bíblia não diz que Jesus "escondeu
a riqueza" sob farrapos, mas tornou-se verdadeiramente pobre (2 Coríntios 8:9). Portanto, afirmar que o esvaziamento é
por "adição" (adicionar a humanidade mantendo a
divindade ativa em segundo plano) é anular completamente a palavra esvaziar (um contrassenso).
Se um copo cheio de água recebe suco, a água não foi esvaziada — houve mistura.
Para haver um verdadeiro esvaziamento, o exercício dos privilégios
divinos de poder precisou cessar ontologicamente na esfera humana de Cristo.
2. Refutação à Inseparabilidade entre Atributos de Poder e a Identidade
de Yahweh
Os críticos alegam que se Deus abrir mão da onipotência ou onisciência, Ele deixa de ser Yahweh, pois os atributos de poder formam a essência intangível de Deus.
Réplica Kenótica:
Essa visão confunde a natureza imutável de Deus (Seu caráter moral, personalidade, valores, amor, justiça, fidelidade e Nome) com as suas prerrogativas operacionais (poderes que Ele exerce sobre o cosmos). Uma coisa é o que a pessoa é (o "homem interior") e outra, o que ela é capaz de fazer.
A identidade de Yahweh na Bíblia é definida primordialmente por quem Ele é em termos de aliança e santidade, e não por uma "obrigação mecânica" de manifestar onipotência em todos os lugares, sendo escravo desses atributos (não podendo abrir mão deles mesmo querendo).
Quando Deus se encarna, Ele não deixa de ser Deus em essência moral, i.e., na Sua Identidade, que define quem Ele é. Pelo contrário, Ele manifesta diante de toda a existência o ápice do Seu caráter: o amor sacrificial (1 João 4:8). Restringir a divindade apenas a "quem tem poder infinito ativo" é reduzir o Criador a uma força bruta, ignorando que o maior poder de Deus revelado na cruz foi o de esvaziar-se por amor.
Nota: a Bíblia deixa claro que Deus não está cativo nem limitado por Seus atributos de poder, diferentemente do que ocorre com Seus atributos morais (Deus não pode mentir, não pode ser tentado pelo mal, a ninguém tenta, não há treva alguma em Seu ser, etc.). Embora seja onisciente, Yahweh pode, por exemplo, esquecer-se de algo, se assim o desejar, como mostram as seguintes passagens: (1) “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43.25); e (2) “Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, E de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais” (Hebreus 8.12). Quem, em sã consciência, poderia assegurar que, mesmo querendo, Deus não tenha a capacidade de esquecer-se de algo se assim o quiser? Nessa mesma linha de pensamento, o Livro de Provérbios mostra a sabedoria (um dos atributos de Deus) personificada, dizendo que, na criação, ela aprendia com Deus, o que nos faz entender que Yahweh é maior do que os Seus próprios atributos: "Então eu estava com ele, e era seu aluno; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo" (Provérbios 8:30) . Em outra passagem, vemos Deus, soberanamente, dando a Adão a liberdade de escolha entre comer ou não do fruto proibido (Gênesis 2:17). Com esse ato soberano, o Senhor obrigou-se a abrir mão de Sua soberania plena e absoluta, permitindo que o homem pudesse tomar livremente as Suas próprias decisões; sem contar que, embora classifique-se como eterno, nas Escrituras Sagradas, Yahweh também se diz “Pai da eternidade” (Isaías 9.6), o que mostra-nos que Ele é maior do que mais esse atributo divino de poder. Apesar dessas passagens claras, há quem diga que Deus é simples e indivisível, e que os atributos de poder são Sua própria essência; por isso, dizem eles, se Yahweh abrir mão da onipotência, Ele deixa de ser Deus e viola Malaquias 3:6, que diz que Yahweh não muda. Contudo, o conceito teológico de "Simplicidade Divina", de "Ato Puro" e “Motor Imóvel” foram herdados da metafísica dos filósofos Aristóteles e Tomás de Aquino, e não do texto bíblico. O Deus da Bíblia não é uma estátua metafísica imóvel, cativa de definições filosóficas humanas. A Bíblia mostra Yahweh agindo no tempo e se relacionando com a criação: Ele se arrepende de ter feito o homem (Gênesis 6:6); Ele decide ouvir a oração e adiar um juízo (2 Reis 20:1-6); Ele escolhe esquecer as transgressões de alguém (Jeremias 31:34). Se Deus não pudesse limitar Seu próprio poder para viver a experiência humana real, então Ele não seria verdadeiramente soberano — seria escravo dos Seus próprios atributos. A verdadeira imutabilidade de Yahweh está no Seu amor, aliança e fidelidade moral (Malaquias 3:6). A encarnação não é a mutação de Deus, mas o ato supremo de Sua soberania se autolimitando para salvar o homem.
3. Refutação ao Exercício de Atributos Divinos (Domínio sobre o
Mar, Curas maravilhosas, expulsão de demônios, conhecimento dos corações das pessoas e de seus segredos)
Os críticos apontam que o fato de Jesus operar maravilhas, acalmar tempestades e ler pensamentos prova que Ele operava por poder divino inerente.
Réplica Kenótica:
A Bíblia explicita que o próprio Jesus abriu mão de fazer qualquer coisa por iniciativa própria ou por poder inerente à Sua carne. Ele afirmou categoricamente: "Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão o que vir fazer o Pai" (João 5:19).
Como Jesus realizava tais feitos, então? Exatamente como os profetas do Antigo Testamento — no caso d'Ele, de forma superior, pois recebeu o Espírito sem medida (João 3:34) —, operando como o Homem perfeito plenamente ungido pelo Espírito Santo.
- Os milagres, expulsões de demônios e domínio sobre os elementos da natureza foram realizados porque Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder (Atos 10:38).
- A ciência do futuro mediato e imediato, dos pensamentos, dos sentimentos e dos segredos da vida das pessoas vinha da revelação direta do Pai através do Espírito que operava n’Ele, da mesma forma que profetas como Eliseu ou Samuel recebiam revelações secretas.
Nota: quanto à ciência supracitada, parece não haver lógica no conceito filosófico defendido pelos adoradores da Trindade, quando afirmam que Jesus tinha
o poder da onisciência, mas “escolheu não saber”, algo que não possui
qualquer sentido. Se Jesus possuísse
onisciência intrínseca, Ele não precisaria "crescer em sabedoria e
em estatura" (Lucas 2:52) nem orar no monte durante a noite
buscando a direção de Deus (Lucas 6:12). Além disso, quando disse que
não sabia o dia nem a hora que viria buscar Sua igreja, mas somente o Pai
(Marcos 13:32), por certo isso era real, até porque Ele excluiu o Espírito Santo (a suposta
“terceira pessoa da Trindade”). Deixar o Espírito Santo de lado é algo absurdo, pois a Bíblia Sagrada diz que Ele conhece as
profundezas e os pensamentos de Deus, da mesma forma que o nosso espírito
conhece plenamente os nossos pensamentos (1 Coríntios 2:11). Outrossim, dizer
que o Espírito Santo não conhece a mente de Deus acaba por fazê-Lo inferior ao
Pai, algo que é inconcebível, até mesmo para o Dogma da Trindade.
4. Refutação à Acusações de "Docetismo Inverso" (Reduzir Jesus
a um Homem Comum)
Os críticos dizem que, se Jesus não tinha poderes divinos ativos, Ele seria apenas um homem comum, o que esvaziaria o significado de Sua encarnação.
Réplica Kenótica:
Pelo contrário! A kenosis radical é a única que salva a verdadeira humanidade de Cristo. Se Jesus andasse na Terra com a onipotência e onisciência "ligadas em segundo plano", Suas tentações seriam uma farsa. Como poderia um ser onipotente e onisciente ser verdadeiramente "tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado" (Hebreus 4:15), se Deus não pode ser tentado pelo mal?
Se Ele sabia de tudo e podia tudo por força divina própria, a fome no deserto, o cansaço no poço de Jacó e a angústia no Getsêmani seriam apenas um teatrinho cósmico. A grandeza do sacrifício e da vitória de Cristo reside justamente no fato de que, sendo um homem de carne e osso totalmente desprovido de privilégios divinos operacionais, Ele venceu o pecado e a morte exclusivamente pela confiança na justiça de Yahweh e na capacitação que recebeu do Espírito Santo.
Nota: ter sido, em Sua jornada terrena, menor do que os anjos (Hebreus 2:17), aniquila completamente qualquer possibilidade de que Jesus possuísse os atributos de poder, pois, tendo tais atributos, jamais isso seria possível (trata-se de um argumento bíblico irrefutável). Em outra passagem bíblica, está dito que “em tudo” a Palavra de Yahweh tornou-se semelhante aos homens (Hebreus 2.17). Tal afirmação bíblica comprova, de modo categórico, que houve o real esvaziamento dos atributos inerentes de Yahweh para que a Palavra (feita carne) fosse um homem perfeito. A não ser, é clero, que creiamos (como defendem algumas religiões) que Jesus era uma espécie de "deus-menor", ou um "semi-deus", ou uma espécie de divindade humana (deus+homem), constituindo-se em um ser híbrido. No que se refere às tentações, há quem diga que a veracidade delas pode ser explicada da seguinte maneira: “as tentação foram reais porque a vontade humana de Jesus sentiu a pressão, mas a Pessoa Divina garantiu a obediência”. Mas este é o ponto onde a teoria trinitariana das "duas vontades" desmorona psicológica e hermeneuticamente. Se a "Pessoa Divina" que sustenta Jesus sabe com 100% de certeza que é onipotente, imortal e incapaz de pecar, a tentação na carne humana torna-se um exercício sem risco real. A tentação só é genuína quando há a possibilidade real de sofrimento e morte sem uma espécie “rede de segurança” de poder divino. Se Jesus usasse a "Pessoa Divina" para "não se dobrar” ao pecado, Ele não teria vencido como o Segundo Adão (o representante da humanidade), mas como um Deus disfarçado de Adão. Para que a vitória sobre o diabo fosse justa e válida, Jesus precisou vencer o diabo usando exatamente as mesmas armas disponíveis para qualquer homem: a Palavra de Deus, o jejum, a oração e a dependência do Espírito Santo (Mateus 4:1-11).
5. Refutação à Leitura Isolada de Colossenses 2:9 ("Habita corporalmente a plenitude")
Os críticos usam Colossenses 2:9 para afirmar que a plenitude da divindade estava ativa e em plena função durante a jornada terrena de Jesus.
Réplica Kenótica:
O verbo grego usado em Colossenses 2:9 é katoikei (habita) no presente do indicativo, de sorte que o contexto da carta fala de Cristo glorificado e exaltado e não do tempo em que Jesus andou nesta Terra. Mesmo olhando para a encarnação, a "plenitude da divindade" pode ser vista na Identidade de Yahweh, que estava plenamente em Jesus, caracterizada pelo Seu caráter, atributos morais, personalidade, valores e Nome.
Ter a "plenitude da divindade" não significa ostentar atributos de onipresença física (afinal, o corpo humano de Jesus só podia estar em um lugar de cada vez; Ele dormiu em um barco e cansou-se nos caminhos que percorreu). Tal expressão indica que todo o propósito divino de salvação está presente naquele Homem (2 Coríntios 5:19), sem que haja outra divindade ou pessoa separada ao lado d'Ele.
Nota: em Efésios 3:19, Paulo ora para que os crentes humanos sejam "cheios de toda a plenitude [pleroma] de Deus". Se ter a "plenitude de Deus" significasse obrigatoriamente exercer onipotência e onisciência operacionais, Paulo estaria orando para que os cristãos de Éfeso se tornassem deuses onipotentes. A expressão "habitar corporalmente a plenitude da Divindade" (Theotēs), em Colossenses 2:9, significa que a totalidade de quem Deus é em Seu caráter, propósito, salvagarda e autoridade está concentrada na pessoa humana de Jesus Cristo. Não há outro Deus fora de Cristo, nem uma “Primeira Pessoa” no céu cobrando uma “Segunda Pessoa” na terra. A Divindade inteira — o único Deus verdadeiro, vazio dos atributos de poder — manifestou-se naquele corpo, cumprindo 2 Coríntios 5:19: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo". Logicamente, o trono não ficou vazio (como acreditam alguns), pois, por causa do atributo da onipresença, Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória (como “Pai”) e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo (Filipenses 2:7), a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito (Hebreus 2:17), morrer pelos pecadores (como “Filho”), cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia de nuvens e de escuridão" (Ezequiel 34:11-12).
6. Síntese dos Argumentos e Réplicas: A Defesa da Kenosis Radical
|
Objeção da Teologia Clássica |
Resposta e Refutação da Kenosis Radical |
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"Esvaziamento foi só de
posição/glória." |
O verbo ekenōsen significa esvaziamento real de conteúdo e
prerrogativas de poder. |
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"Deus não pode abrir mão da
onipotência." |
Confusão entre o caráter moral imutável de Deus com o exercício de atributos
operacionais, que Ele soberanamente autolimitou. |
|
"Jesus fazia milagres por autoridade
própria." |
Jesus mesmo declarou que "nada podia fazer de si mesmo"
(João 5:19), operando por capacitação do Espírito Santo (Atos 10:38). |
|
"Isso transforma Jesus num homem
comum." |
Pelo contrário, dá validade à tentação real (Hebreus 4:15) e exalta a
vitória de um homem integral totalmente guiado pelo Espírito. |
|
"Colossenses 2:9 prova a plenitude
ativa." |
A plenitude refere-se à habitação total da identidade e do propósito
de Yahweh naquela pessoa humana, e não ao uso de onipotência cósmica por um
corpo humano limitado. |
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Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.






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